Bullying da infância à vida adulta

autoconhecimento, desenvolvimento pessoal, psicopedagogia e leitura

Bullying da infância à vida adulta

Relato pessoal sobre experiências de bullying na infância e adolescência, humilhações na vida adulta e impactos emocionais

Objetivo: Compartilhar minhas lembranças e percepções sobre as experiências de violência, perseguição e humilhação que vivi desde a infância, bem como sobre o impacto dessas experiências na minha vida adulta e na minha relação com a profissão de professora. Acredito que o que sofri na infância, foi revivido em 2018, ano que coincidentemente iniciou o processo do esgotamento e burnout. 

1. Minha infância: quando comecei a sentir medo das pessoas

Desde criança, eu era quieta, medrosa e não gostava de chamar atenção. Eu não queria brigar com ninguém e não fazia mal a ninguém. Gostava de estudar e me dedicava bastante à escola. Hoje, quando olho para aquela menina, tenho dificuldade de entender por que ela foi escolhida para sofrer tantas agressões.

Minhas primeiras lembranças tristes da escola, foram com 8 anos, quando os meninos passavam a mão na minha bunda e no meu peito, depois passaram a dar tapas nestas partes porque eu desviava. Eles falavam que iam me engravidar, e eu inocente chorava todos os dias achando que estava grávida. O banheiro ficava na área das crianças grandes, então eu não ia ao banheiro, mas quando era inevitável, eu ia, e sempre havia meninas prontas para empurrar, puxar o cabelo e xingar.

As meninas puxavam meu cabelo, cuspiam em mim e me intimidavam, dizendo que iriam me bater e, algumas vezes, até me matar. Elas me perseguiam até a minha casa, jogavam pedras (em mim e na minha casa) e gritavam palavras ofensivas. Na escola, eu precisava ficar trocando de esconderijo ou me refugiar na sala de aula, no banheiro ou na biblioteca durante o recreio, porque tinha medo de ser encontrada. Quando me encontravam sozinha, me empurravam e me xingavam.

Ninguém percebia o que estava acontecendo comigo. Eu conseguia ficar mais segura quando estava perto de uma amiga ou de alguns amigos que me protegiam.

Em uma ocasião, fui cercada por várias meninas que tentaram me bater. Levei um tapa no rosto de uma, mas elas eram muitas e precisei sair correndo, porque tinha medo de que me espancassem.

Eu vivia com medo e tentava me esconder para evitar novas agressões. Em vez de poder aproveitar a escola como as outras crianças, precisava pensar em como me proteger.

2. Os motivos pelos quais acredito que me perseguiam

As meninas me chamavam de “filhinha de papai”, porque acreditavam que minha família tinha mais dinheiro do que as famílias delas.

Também acredito que minha inteligência e minha dedicação aos estudos contribuíam para a rivalidade. Eu era considerada nerd, gostava de estudar e exigia mais atividades dos professores, se não dessem eu reclamava para a pedagoga. A ideia de ser medíocre na vida adulta era inconcebível.  Não gostava de fazer as coisas de qualquer jeito e queria aprender mais.

Outro motivo que percebia era o fato de muitos meninos gostarem de mim. Algumas meninas que gostavam desses meninos queriam brigar comigo. Eu era uma criança que não queria namorar. Meu interesse era estudar, e eu não queria me envolver com um menino apenas porque ele gostava de mim.

Um dos meninos que gostava de mim era assustador para mim. Ele batia em outras crianças na escola, e eu tinha medo dele. Eu não correspondia ao interesse dele, mas isso acabou contribuindo para que eu fosse perseguida pelas meninas da família dele.

Não sei se esses eram todos os motivos das agressões, mas eram as situações que eu percebia na época. Durante muito tempo, fiquei tentando entender o que havia de errado comigo para que tantas pessoas me tratassem daquela maneira. Meus amigos só me dizem que eu era “diferente”.

3. O beijo forçado e a humilhação diante da escola

Quando eu tinha aproximadamente 11 anos, fui ameaçada pelas meninas que gostavam daquele menino. Elas disseram que, se eu não o beijasse, eu morreria de tanto apanhar.

Eu o beijei porque estava com medo. Não queria beijá-lo, não gostava dele e não me sentia segura. Fingi o beijo, de olhos abertos e aterrorizada, tentando evitar que as ameaças se concretizassem.

Depois, aconteceu algo que tornou tudo ainda pior. As meninas espalharam o episódio pela escola inteira. Riam de mim e diziam que eu não sabia beijar e que havia beijado de olhos abertos e não mexia a boca.

Os meninos que gostavam de mim passaram a me odiar, e as meninas que gostavam daquele menino intensificaram as agressões. A situação se tornou uma humilhação pública. Algo que eu havia feito por medo passou a ser usado para me ridicularizar e prejudicar minhas relações com os colegas.

As perseguições continuaram até eu sair daquela escola. Eu não me sentia livre para simplesmente estudar e viver minha infância. Tinha medo das pessoas e das consequências de qualquer situação que pudesse provocar novas agressões.

4. Agressão aos 14 anos e ameaças de morte

Quando eu tinha 14 anos, a namorada daquele menino passou a me perseguir junto com familiares dele. Em uma dessas situações, ela me bateu no rosto. Só não fui espancada porque consegui correr para casa, que já estava perto. Contei à minha mãe o que havia acontecido, e fomos à delegacia.

A mãe da menina também me ameaçava de morte e ameaçava minha família. Na delegacia, na frente do policial, ela teria dito: “Por que não matou de uma vez?”. Essa lembrança é especialmente marcante para mim, porque não se tratava apenas de conflitos entre colegas. Eu estava sendo agredida e ameaçada também por adultos.

Como já era final do ano letivo e eu havia passado de ano, frequentei a escola apenas por alguns dias depois desse episódio. Um amigo passou a me buscar e me levar para casa. Eu tinha medo de continuar exposta àquelas pessoas. Minha preocupação era conseguir chegar em casa em segurança.

5. Minha família e as tentativas de pedir ajuda

Eu não contava tudo o que acontecia comigo porque tinha medo de que me culpassem.

Meu irmão me chamava de louca e dizia que eu era exagerada/sensível demais. Minha mãe dizia que eu era “mimada”. Por isso, eu contava apenas algumas coisas, geralmente quando já estava no meu limite. Minha mãe chegou a ir à escola reclamar algumas vezes, mas as situações eram tratadas como “coisa de criança” pela direção da escola, e que a vida delas não era fácil e também sofriam com o sistema familiar delas.

Isso contribuiu para que eu não me sentisse compreendida nem suficientemente protegida. Eu já tinha medo das agressões e também tinha receio de contar o que acontecia e não ser acreditada. Não estou afirmando que minha família conhecia todos os detalhes do que eu vivia. Eu mesma escondia muitas coisas. Entretanto, lembro de sentir que precisava suportar grande parte daquele sofrimento sozinha.

Durante muito tempo, fiquei tentando entender por que fui escolhida para sofrer tudo aquilo. Eu era quieta, medrosa, não fazia mal a ninguém e, na verdade, nem queria que soubessem que eu existia.

6. O sofrimento emocional durante a infância e adolescência

O sofrimento chegou a um ponto muito grave. Eu vivia pensando em suicídio. Cheguei a escrever cartas de despedida e deixá-las com minha única amiga. Naquela época, para mim, morrer parecia ser uma questão de tempo. Eu não conseguia enxergar uma saída para tudo aquilo que estava vivendo.

Essas lembranças mostram o quanto eu estava sofrendo emocionalmente. Eu era uma criança e uma adolescente que sentia medo, solidão e desamparo, sem conseguir imaginar como aquela situação poderia terminar.

Hoje, consigo olhar para aquela menina e perceber que ela precisava de proteção, acolhimento e ajuda. Ela não precisava ser mais forte, menos sensível ou diferente do que era para merecer respeito.

7. Minha vida adulta: as experiências de humilhação no trabalho

Na vida adulta, tornei-me professora e trabalhei durante muitos anos na educação. Sempre dedicada onde alem de trabalhar na escola, fazia o trabalho na minha casa. Deixei todo meu laser em prol de ser a melhor professora para meus estudantes. Entretanto, também passei por situações no ambiente profissional que me fizeram sentir humilhada, ridicularizada e desacreditada.

Após alguns anos de carreira,  assumi um projeto e entrei em uma escola para trabalhar no Farol do Saber, com cursos para crianças na área de tecnologia. Já no primeiro dia era alvo de comentários depreciativos. Diziam que eu era “filha do prefeito” e insinuavam que eu havia conseguido o cargo porque teria praticado sexo com alguém. Elas acreditavam que eu era privilegiada e ganharia mais que elas (não era a realidade). 

Quando eu ia à sala dos professores, faziam piadas de mau gosto e se reuniam para tirar sarro de mim. Eu me sentia constrangida e passei a evitar aquele espaço. Cheguei ao ponto de deixar de fazer meu intervalo na sala dos professores.

Nas reuniões, eu já antecipava que seria zombada. Só de pensar que precisaria participar, sentia crises de ansiedade e precisava me medicar.

Também passei por situações em que, após relatar acidentes de carro que havia sofrido, ouvia dizer que eu deveria inventar outra história, porque aquela já não convencia mais. Além disso, crianças me contavam que suas professoras falavam de mim e orientavam os alunos a não fazer cursos comigo. Algumas crianças vinham (me devolver o bilhete de convite para os cursos) me perguntar se eu que era a “professora autista”, quando eu perguntava, elas só falavam que suas professoras falavam “entrega pra autista do Farol”. Não presenciei necessariamente todas essas conversas diretamente, mas os relatos contribuíram para minha sensação de desvalorização profissional e de que minha reputação estava sendo prejudicada.

Essas experiências me fizeram sentir que eu não era respeitada como profissional e que estava novamente exposta a situações de ridicularização e rejeição.

8. A relação que percebo entre o passado e o presente

Hoje, quando penso em voltar a trabalhar em uma escola, sinto desespero. O que mais me aflige é o medo de ser humilhada novamente, a sensação de reviver o que sofri quando era criança e adolescente e também as experiências que vivi como professora.

A escola, que deveria ser um ambiente de aprendizagem e desenvolvimento, tornou-se um lugar associado ao medo, à exposição e à possibilidade de ser ridicularizada.

Quando penso em voltar, não penso apenas nas atividades profissionais que precisarei realizar. Também antecipo a possibilidade de ser julgada, desacreditada, excluída ou humilhada novamente.

Percebo uma semelhança entre algumas experiências da infância e da vida adulta: quando criança, eu me escondia na sala de aula, no banheiro ou na biblioteca para evitar as agressoras; quando adulta, deixei de frequentar a sala dos professores e me “tranquei” no na minha sala de aula para evitar as situações que me causavam constrangimento. 

Não sei até que ponto essas experiências estão diretamente relacionadas, mas sinto que o ambiente escolar atual desperta lembranças e sentimentos associados ao que vivi anteriormente.

Quero compreender melhor essa relação na terapia, sem presumir que todas as minhas dificuldades atuais tenham uma única causa.

9. Minha relação atual com a profissão

Hoje, não quero mais ser professora. Sinto que não me encaixo nos ambientes escolares e que não quero continuar exercendo essa profissão.

Não se trata apenas de não gostar de algumas tarefas. Estou cansada, esgotada do trabalho. Existe o medo de ser humilhada novamente, a sensação de reviver experiências dolorosas e a percepção de que não quero mais continuar nessa trajetória profissional.

Só de pensar em ir trabalhar, sinto desespero. Quero viver outra vida, diferente dessa que se tornou tão sofrida para mim.

Gostaria de conseguir construir uma vida com mais tranquilidade, segurança e liberdade, sem sentir que preciso enfrentar continuamente situações que me fazem reviver o medo e a humilhação.

Não quero que todos os anos que dediquei à educação sejam apagados ou considerados inúteis. Entretanto, também não quero que minha história profissional se transforme em uma obrigação de continuar em um ambiente no qual sinto tanto sofrimento.

Preciso compreender minhas possibilidades e meus limites, com acompanhamento dos profissionais responsáveis pela minha saúde, para avaliar os caminhos possíveis para o meu futuro.

10. Como me sinto atualmente

Hoje, não tenho pensamentos de suicídio, mas sinto falta de vontade de viver. Estou com anedonia, cansada da vida que levo e não quero continuar vivendo da mesma maneira. Não me interesso por mais nada nem ninguém.

Não desejo morrer; desejo sair de uma situação de sofrimento da qual não consigo enxergar uma saída clara neste momento, a não ser cancelar o que me faz mal, a educação.

Quero encontrar uma forma de viver que não seja marcada pelo medo de trabalhar, pela expectativa de ser humilhada e pela sensação de estar presa a uma profissão que não quero mais exercer.

Considero importante falar sobre isso na terapia porque meu sofrimento atual não está restrito ao trabalho. Ele envolve minha história, minha relação com as pessoas, minhas lembranças e a dificuldade de imaginar um futuro diferente.

11. O que gostaria de trabalhar na terapia

Gostaria de compreender e elaborar as experiências de bullying, violência, ameaças e humilhação que vivi na infância e adolescência, assim como as experiências de desqualificação e constrangimento que relatei na vida adulta.

Também gostaria de investigar:

  • Como essas experiências podem ter influenciado minha autoestima, minha segurança emocional e minha relação com outras pessoas.
  • Se existe uma relação entre as lembranças do bullying e o desespero que sinto diante da possibilidade de voltar à escola.
  • Como lidar com o medo de ser humilhada, julgada ou desacreditada.
  • Como compreender a intensidade da minha ansiedade e do meu sofrimento diante do trabalho.
  • Como reconstruir minha identidade para além da profissão de professora.
  • Como avaliar alternativas profissionais e pessoais que respeitem minha saúde e meus limites.
  • Como recuperar a possibilidade de imaginar uma vida diferente, com mais tranquilidade, autonomia e sentido.

Não quero chegar a conclusões antecipadas nem atribuir todos os meus problemas ao que vivi na infância. Quero compreender minha história com seriedade e cuidado, reconhecendo tanto os acontecimentos quanto os efeitos que percebo em mim.

Considerações finais

Durante muito tempo, perguntei a mim mesma por que fui escolhida para sofrer tantas agressões. Eu era uma criança quieta, medrosa, estudiosa e que não queria fazer mal a ninguém. Tentei me esconder, evitar conflitos e passar despercebida, mas as perseguições continuaram.

Hoje, olhando para minha trajetória, percebo que passei por experiências que me fizeram sentir medo, vergonha, desamparo e rejeição. Na vida adulta, algumas situações no trabalho despertaram sentimentos semelhantes.

Quero compreender o que aconteceu comigo, dar espaço às lembranças que durante muito tempo tive dificuldade de compartilhar e descobrir como seguir em frente sem continuar presa ao sofrimento.

Quero ter a oportunidade de construir uma vida diferente, sem precisar continuar suportando uma realidade que me causa tanto desespero.

 

 

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